Isabelle: Tensão nas Alturas
- Bw Presentes
- 28 de jan. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 13 de mai.
Isabelle, Tensão nas Alturas #2

Isabelle sempre teve uma relação especial com aeroportos. Para muita gente, eram apenas lugares de filas, esperas e conexões atrasadas. Para ela, eram portas para outras versões de si mesma. A cada viagem, uma possibilidade diferente: novos cheiros, novas paisagens, novos idiomas — e, em alguns casos, novas tentações cuidadosamente embaladas em classe econômica.
Naquele dia, seu destino era o México. A mala já tinha passado pela esteira, os documentos estavam em ordem e o passaporte carimbado parecia sorrir para ela com aquela página em branco pronta para ser preenchida. Mas não era só o carimbo que a deixava animada. Isabelle sentia um tipo de energia elétrica antecipando o que ainda nem tinha nome. Era como se o universo tivesse sussurrado: “essa viagem vai te render histórias”.
Ao entrar no avião, percebeu que o voo estava cheio. Gente ajeitando malas de mão, procurando assento, brigando silenciosamente com o cinto de segurança. Isabelle encontrou o seu lugar perto da janela e se acomodou, ajeitando o cabelo, o fone de ouvido, o cinto — nessa ordem de prioridade.
Só então reparou no passageiro ao lado.
Ele parecia ter a mesma idade que ela, talvez um pouco mais. Tinha um rosto simpático, expressão curiosa e um brilho nos olhos de quem também gostava de sair da própria rotina. Não era o tipo de beleza que pararia um aeroporto, mas havia algo atraente e tranquilo na presença dele. Parecia alguém que não se levava tão a sério, o que para Isabelle já era meio caminho andado.
Enquanto o avião taxiava pela pista, o anúncio de segurança ecoava pela cabine. Máscaras de oxigênio, saídas de emergência, coletes salva-vidas. Isabelle ouvia tudo com aquela atenção seletiva de quem já tinha decorado o discurso das aeromoças, mas continuava fingindo surpresa. Ao lado, o desconhecido olhava pela janela como um garoto em primeira viagem. O entusiasmo dele a divertiu.
Quando a aeronave finalmente decolou, ela sentiu aquele frio conhecido no estômago — uma mistura de gravidade, altura e expectativa. O corpo foi levemente empurrado contra o assento, o chão desapareceu sob as nuvens, e com ele, por alguns instantes, desapareceram também as obrigações do mundo lá embaixo.
Havia algo de libertador em estar suspensa no ar, presa a um cinto que não segurava nem metade das coisas que corriam pela sua mente.
Em determinado momento, Isabelle percebeu que o homem ao lado também parecia estar vivendo um pequeno espetáculo interno. O olhar dele passeava pelo interior da cabine, voltava para a janela, retornava para frente, sempre com um leve sorriso nos lábios. A certa altura, seus olhares se cruzaram. Não houve palavra, apenas um reconhecimento silencioso: dois estranhos com a mesma inquietação brilhando no rosto.
A conexão não veio em forma de conversa imediata, mas através de pequenos sinais: um sorriso breve, um levantar de sobrancelha, o jeito como os dois pareciam notar os mesmos detalhes — o casal brigando discretamente duas fileiras à frente, o passageiro impaciente que apertava o botão de chamada da comissária como se fosse controle remoto, a criança que insistia em olhar por cima do banco com uma curiosidade invasiva.
Isabelle começou a se divertir com a situação. Não precisava de muito para se entreter, e muito menos para acionar sua imaginação. Aquele desconhecido ao lado poderia ser qualquer coisa: empresário, turista, aventureiro, alguém fugindo de algo, alguém indo em direção a alguém. O mistério, por si só, já tinha seu charme.
Com o passar do tempo, a cabine foi ficando mais silenciosa. Muitos passageiros colocaram fones de ouvido, alguns ajustaram as poltronas para trás, outros simplesmente fecharam os olhos fingindo dormir. A iluminação foi suavizada, criando o clima perfeito para cochilos, pensamentos soltos e, no caso de Isabelle, fantasias discretas.
Havia uma tensão diferente no ar, não daquelas pesadas, mas uma que se percebia na proximidade dos braços, no roçar ocasional de cotovelos, na forma como o espaço compartilhado parecia cada vez menor. A mente dela começou a trabalhar com esse material improvável, transformando o voo em palco de possibilidades.
Ela se pegou imaginando como seria se aquele interesse silencioso avançasse algumas casas no tabuleiro. Visualizou uma conversa que começaria com uma pergunta banal sobre o destino da viagem, seguiria para confidências rápidas de estrada e, tão naturalmente quanto a decolagem, desembocaria em uma química indiscutível. Imaginou mãos que se aproximavam com o pretexto de pegar algo no compartimento, pernas que se tocavam sem pressa, respirações que se encontravam num intervalo mais longo do que a educação recomendaria.
Isabelle era boa em construir cenas em sua cabeça. Tinha uma criatividade generosa quando o assunto eram encontros improváveis. E ali, em pleno voo, com o mundo reduzido a uma cabine pressurizada, era difícil não deixar o enredo avançar.
Por um momento, seus pensamentos ousaram caminhar para uma direção mais concreta. Banheiro de avião, porta trancada, espaço mínimo, respirações curtas. O sorriso dela surgiu sozinho ao imaginar o caos logístico de uma cena dessas — dois corpos tentando se encaixar num cubículo claramente projetado por alguém que nunca pensou no uso alternativo daquele espaço.
A realidade, no entanto, permaneceu um pouco atrás da fantasia. O máximo que aconteceu foi um quase toque de mãos na disputa pelo apoio de braço, um breve esbarrão de ombros quando os dois se movimentaram ao mesmo tempo, e algumas trocas de olhares que pareciam carregar um pequeno segredo. O tipo de tensão que qualquer roteirista usaria sem medo.
Nem sempre era preciso que algo acontecesse de fato para que Isabelle se sentisse excitada pela situação. Às vezes, bastava a promessa. E ali, entre nuvens e cintos afivelados, ela tinha exatamente isso: uma promessa não cumprida, mas suficientemente viva para que sua imaginação cuidasse do resto.
Em vez de provocar o desconhecido ao lado, ela escolheu provocar a si mesma. Fechou os olhos por alguns instantes, fingindo descansar, e deixou que os pensamentos seguissem sua própria rota. Trocou o rosto do homem ao lado pelos de outros que já tinham ocupado esse lugar antes na sua história: amantes antigos, flertes relâmpago, encontros de uma noite só que tinham deixado marcas curiosas na memória.
Cada lembrança trazia sensações específicas: o peso de uma mão no seu quadril, o roçar de um beijo no pescoço, a voz baixa falando coisas que nunca seriam repetidas em voz alta à luz do dia. Tudo misturado, tudo reorganizado pela cabeça de Isabelle naquele espaço comprimido entre uma nuvem e outra.
Aos poucos, a respiração foi mudando. Não de forma escandalosa, mas o suficiente para que ela sentisse o próprio corpo responder às imagens internas. As curvas que já eram suas companheiras diárias pareciam, naquele momento, mais presentes, mais acordadas. O tecido da roupa sobre a pele ganhava uma textura consciente demais, o cinto de segurança parecia marcá-la com mais firmeza do que o normal.
Ela abriu os olhos, respirou fundo e encarou a tela à sua frente, que mostrava o mapa do voo. Faltavam ainda algumas horas para chegar ao México, e ela sorriu ao perceber que estava, no mínimo, bem entretida.
Quando o avião começou o procedimento de descida, a cabine foi novamente tomada por anúncios, luzes acendendo, passageiros se ajeitando. O clima íntimo e silencioso deu lugar à organização prática da chegada. Isabelle recostou-se no assento e olhou de relance para o homem ao lado. Ele também parecia voltar lentamente de algum lugar dentro da própria cabeça.
Foi então que aconteceu um detalhe quase insignificante, mas que ela registrou com precisão: antes de o avião tocar o solo, ele ajeitou a roupa com um gesto rápido, como quem tenta disfarçar algum tipo de reação indesejada. Não olhou para ela, mas o leve rubor nas bochechas entregou mais do que a postura controlada gostaria.
Isabelle não comentou nada. Apenas guardou a cena num daqueles arquivos mentais que ela costumava revisitar em noites mais silenciosas. Um sorriso discreto surgiu no canto de sua boca. Certo ou não, gostava de imaginar que não tinha sido a única a sofrer com os efeitos colaterais daquele voo.
Ao desembarcar, pegou sua bagagem de mão e entrou no fluxo de passageiros em direção à imigração. O homem seguiu por outro corredor, sem despedidas dramáticas, sem promessas, sem troca de contatos. O encontro ficou restrito ao território aéreo, como se fosse uma história guiada pelas leis particulares da aviação: o que acontece acima das nuvens, acima das nuvens permanece.
Enquanto caminhava pelo aeroporto mexicano, sentindo o ar mais quente, Isabelle pensou que aquela viagem já tinha começado melhor do que o esperado. Nada de cena explícita, nenhum escândalo em banheiro de avião, nenhum romance instantâneo. Mas havia uma tensão bem aproveitada, um voo inteiro de imaginação fértil e a sutil sensação de que seu corpo tinha despertado antes mesmo de pisar em solo estrangeiro.
Para alguém como ela, isso já era um excelente sinal.
O México ainda nem tinha mostrado a que veio, e Isabelle já estava em clima de altitude emocional. A parte concreta da história, ela sabia, viria depois — em terra firme, sob um sol quente e com todas as possibilidades abertas à sua espera.





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