Isabelle: Vanilla e Pimenta
- Bw Presentes
- 30 de abr.
- 7 min de leitura
Atualizado: 13 de mai.

Isabelle acordou cedo, contrariada, com o despertador apitando como se odiasse a ideia de prazer matinal. Lembrou que tinha curso do trabalho no turno da tarde e tentou convencer o próprio corpo de que ser adulta responsável também podia ser sexy. Tomou banho com calma, escolheu uma roupa confortável, mas que marcava sutilmente as curvas, e passou um perfume que dizia: “Sou séria, mas nem tanto”.
Desceu para o café da manhã planejando apenas dois objetivos: comer bem e não pensar demais em Héctor. Conseguiu cumprir exatamente metade do plano. Assim que entrou no salão, lá estava ele: impecável, cheiroso, roupa colada, sorriso de galã… sentado à mesa com um homem que parecia a antítese viva de qualquer fantasia.
Paulo Escobar. Um velho muito feio, baixinho, barriga grande empurrando o tecido da camisa, pelos aparecendo onde a camisa insistia em não dar conta, óculos escorregando no nariz. Mas havia algo ali: o relógio caro, a postura de quem está acostumado a ser servido, o ar de milionário que compra silêncio com gorjeta. Isabelle decidiu que deviam ser colegas de trabalho, ou algum tipo de cliente importante. A mente dela se esforçava para manter tudo numa categoria segura: negócios.
Sentou-se numa mesa ao lado, fingindo que se importava apenas com o pão e o café. Na realidade, seus ouvidos esticavam mais que o pescoço. Tentava decifrar qualquer palavra, uma risada, um tom de voz. Mas o salão parecia conspirar contra sua curiosidade: pratos batendo, talheres tilintando, barulho de máquina de café, gente conversando alto. A única coisa clara era a intimidade tranquila com que os dois dividiam a mesa. Héctor ria de algo que Paulo dizia, Paulo o observava com uma calma de quem está onde quer estar.
Quando terminaram o café, levantaram juntos, foram até o balcão, pagaram e seguiram para o elevador lado a lado. Isabelle deixou alguns segundos passarem, levantou num movimento estudado de turista distraída e seguiu discretamente atrás. Subiu no mesmo elevador, fingindo olhar para o celular, e depois os acompanhou com os olhos pelo corredor, mantendo distância segura para não parecer perseguição.
Viu os dois pararem na frente da mesma porta, trocarem poucas palavras e, sem qualquer hesitação, entrarem juntos no mesmo quarto. Um quarto só. Uma chave. Um clique de fechadura que soou como trilha sonora dramática em sua mente.
O coração de Isabelle deu um salto teatral, daqueles com close na novela. Colegas de trabalho muito íntimos? Amigos inseparáveis? Sócios em algum negócio que precisava de muita privacidade? Enquanto o cérebro tentava formular teorias respeitáveis, a parte mais imaginativa dela já produzia cenas inteiras, com cortes, câmera lenta e trilha melodramática.
Determinada a descobrir alguma coisa, Isabelle foi até a recepção como quem não quer nada. Encostou-se ao balcão com um sorriso que sabia usar: mistura de simpatia, leve inocência e um toque de malícia discreta. Começou com perguntas genéricas sobre o café, o serviço, o movimento do hotel. Aos poucos, tentou costurar algo sobre hóspedes, reservas, quartos compartilhados. O recepcionista, porém, parecia ter feito um curso avançado em “Resistência a Clientes Curiosos”. Suava, gaguejava um pouco diante do charme dela, mas não abria a boca para dizer nada que não fosse estritamente profissional.
Ela inclinou o corpo, aproximou um pouco mais o rosto, baixou o tom de voz, arriscou uma frase ou outra mais insinuante. Nada. O máximo que conseguiu foi um sorriso tímido, um “não posso informar esse tipo de dado, senhora”, e a certeza de que aquele homem levava muito a sério o contrato de confidencialidade. Saiu da recepção sem a informação que queria, mas com a sensação incômoda de que, pela primeira vez, seu charme tinha batido num muro burocrático.
O horário apertava, e ela ainda tinha o curso da empresa. Pegou um transporte, passou a tarde inteira ouvindo sobre metas, produtividade, liderança, sinergia e outras palavras que soavam menos interessantes do que “Héctor entrando num quarto com Paulo”. Tentou acompanhar, anotou algumas coisas, balançou a cabeça nas partes importantes, mas, no fundo, sua mente revisitava o corredor do hotel, a porta fechando, a proximidade entre os dois.
Na volta, o universo – conhecido também como roteirista da sua vida – decidiu apimentar a narrativa. Ao entrar no elevador do hotel, ela se viu frente a frente com os dois. Paulo Escobar, de camisa esticada sobre a barriga, cheiro de colônia forte e sorriso de quem se acha irresistível. Héctor, mais bem arrumado ainda, perfumado, camisa colada ao peito, evitando cuidadosamente o olhar dela.
Todos se cumprimentaram com formalidade: um “boa tarde” aqui, um “como foi o dia?” ali. Pareciam três estranhos que tinham se visto uma vez no café, nada mais. Héctor falava pouco, ajeitava a manga da camisa, fingia se ocupar com o painel dos andares. Paulo, por outro lado, assumiu o papel de homem sociável e irritantemente expansivo: elogiou a cidade, a vista do hotel, perguntou a Isabelle se estava gostando da estadia, tentou arrancar risos dela com comentários supostamente espirituosos.
Isabelle respondia com educação, mas sentia a tensão no ar, como se o pequeno espaço metálico estivesse cheio de frases que ninguém ousava dizer em voz alta. Quando as portas do elevador se abriram, cada um seguiu seu caminho, mas o desconforto ficou pregado na pele dela como um cheiro que não sai.
À noite, o sono se recusava a chegar. Isabelle virou de um lado para o outro na cama, ouviu o ventilador girando, olhou para o teto como quem espera uma resposta escrita em neon. No final, decidiu que não suportava mais a curiosidade. Saiu do quarto, pisando leve no corredor, o coração acelerado não se sabia se de expectativa ou vergonha antecipada.
Parou em frente à porta do quarto onde sabia que Héctor e Paulo estavam hospedados. Primeiro, só ficou ali, imóvel, tentando ouvir alguma coisa sem encostar. Depois, aproximou-se, encostou o ouvido na madeira, como havia feito com seus vizinhos no passado. E, de novo, as paredes finas entregaram mais do que deveriam.
Do outro lado, sons abafados que não pediam tradução: movimentos que raspavam no colchão ou no chão, respirações mais pesadas, risos contidos, gemidos entrecortados por pausas longas, como se cada silêncio fosse um tipo de toque. Não havia falas nítidas, mas havia um ritmo. Um ritmo que o corpo dela reconhecia.
O primeiro impacto foi físico: a pele arrepiando, a respiração prendendo, um calor conhecido subindo do ventre ao peito. Isabelle sempre reagira a qualquer cena de amor com curiosidade e desejo, mesmo quando a cena não era dela. Mas, dessa vez, havia algo a mais. Uma confusão que misturava excitação, surpresa, ciúme e estranhamento. A imagem mental de Héctor – tão bonito, tão perfumado, tão encaixado nas fantasias que ela teria naturalmente – ao lado de Paulo – tão fisicamente distante de qualquer padrão de beleza dela – bagunçava completamente qualquer lógica que tivesse construído.
“Como assim?”, ela pensava, enquanto mantinha o ouvido encostado, dividida entre ficar e fugir. “Ele é lindo demais. Ele é perfeito demais. Ele é… com ele? Logo com ele?”. A mente, sempre criativa, começou a preencher as lacunas com cenas que não via, apenas intuía. Do outro lado, talvez existisse muito mais do que um encontro de corpos; talvez houvesse algo que ela não sabia nomear, algo que não cabia na simplicidade do “bonito com bonito” e “feio com feio”.
Voltou para o quarto com passos rápidos e coração em descompasso. Sentou na cama. Levantou. Andou de um lado para o outro. Olhou para o espelho, para o próprio corpo, para o rosto ruborizado. Será que estava com ciúme? De quem, exatamente? De Héctor, que não a queria? De Paulo, que tinha acesso ao que ela imaginara para si? Ou estaria invejando a coragem – ou a imprudência – de viver um desejo que o mundo julgaria em silêncio?
Entre uma pergunta e outra, escolheu a solução menos sofisticada e mais humana possível: fugiu. Pegou a bolsa, passou um batom rápido, olhou a hora. Quase onze da noite. O México, segundo ela, ainda tinha muita tequila para oferecer. E ela, com certeza, tinha o estômago e o coração prontos para o risco.
Saiu do hotel e se dirigiu à parte mais crua da cidade, onde luzes coloridas piscavam em letreiros hesitantes, o cheiro de álcool barato se misturava ao suor e à fritura, e as calçadas pareciam cenário de filme que a gente não admite assistir, mas assiste. Encontrou um bar de aparência duvidosa, mesas bambas, cadeiras tortas, paredes manchadas, um palco pequeno no fundo sob luz vermelha.
Sentou-se sozinha, pediu uma tequila. Depois outra. E mais outra. Cada copo queimava a garganta e, ao mesmo tempo, anestesiava um pedaço de suas perguntas. Entre um gole e outro, pensava em Héctor, em Paulo, no quarto, na recepção, no elevador, em todas as coisas que não sabiam o lugar certo de ocupar dentro dela.
No palco, as luzes baixaram ainda mais. Um homem mascarado surgiu, todo de preto: botas, calça justa, colete, luvas, um cinto com detalhes metálicos. A máscara escondia o rosto, deixando apenas a boca à mostra. A música alta envolvia o ambiente com um ritmo pesado, quase hipnótico. Ele começou a performance com movimentos lentos, calculados, tirando peça por peça com uma teatralidade que beirava a paródia.
Usava chicotes como se fossem parte da coreografia, batendo no chão, girando no ar, tocando o próprio corpo com um controle que misturava domínio e espetáculo. O couro refletia a luz vermelha, criando sombras que faziam tudo parecer ainda mais proibido do que realmente era. Isabelle, já com o álcool circulando generosamente pelo sangue, assistia àquela cena como quem vê um reflexo distorcido da própria mente: sensualidade encenada, segredo assumido, drama exagerado.
Enquanto o homem mascarado girava sob a luz vermelha, ela se pegou pensando se Héctor, atrás da porta trancada, também não vivia mascarado. Se o relacionamento com Paulo era apenas prazer, ou também uma forma de se esconder num abraço onde o mundo de fora não o alcançava. Pensou em Paulo, com sua aparência tão distante do ideal, mas com dinheiro, poder e um quarto que, de alguma forma, oferecia proteção.
Mais uma tequila. A cabeça girava, mas algumas coisas ficavam paradoxalmente mais nítidas. Talvez o problema não fosse Héctor ser bonito demais, nem Paulo ser feio demais. Talvez o problema fosse que o desejo raramente seguia o roteiro óbvio que ela imaginava. Às vezes, o corpo escolhia o que fazia sentido internamente, mesmo que por fora fosse um escândalo visual.
No meio da fumaça, do som excessivo, do couro, da máscara e da luz vermelha, Isabelle percebeu que a vida estava lhe oferecendo um tipo diferente de aula: uma aula sobre segredos, máscaras, camas compartilhadas e sentimentos que não se encaixam em rótulos simples. Tomou o último gole, sentiu o corpo quente e pesado, e entendeu que, naquela noite, ela não tinha respostas. Tinha apenas o privilégio incômodo de ser a espectadora de uma história onde o amor, a atração e o poder dançavam entre o vanilla e a pimenta sem pedir licença a ninguém – nem mesmo a ela.





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